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A Última Crônica
Fernando Sabino escreveu em um livro A Última Crônica. Escreveu como gostaria seu último escrito. Para mim, ela é inesquecível. Esses dias, voltava de uma festa eu e um amigo. Uma menina vem de mão com uma mulher. A mulher, desequilibrada, vem de encontro a nós. Vamos para o lado. Pouco tempo depois, vai para cima de um homem. Ele desvia. Ela fica olhando, fala algo que não ouço. Então, a menina de não mais que dez anos, sustenta um olhar firme para frente e com valentia diz calmamente:
- Ele já saiu, mãe.
Ela dizia que o homem tinha saído. Que não queria nada com sua mãe. Quando disse a palavra mãe, senti algo traiçoeiro. Uma punhalada. Era uma menina, uma criança, que tinha mais responsabilidade do que quem a gerou. Carregava a mãe embriagada de volta para casa e ouvia todas as barbaridades que ela falava no caminho.
E eu, segurando as lágrimas, ouço do meu amigo uma célebre idiota frase, “ te preocupa com uma bêbada, já vi coisa muito pior”. O que ele não entende, ou não quer entender, é que me preocupo porque é a mãe da criança. Como sonhar com um belo futuro com este exemplo de sua mãe.
Uma criança inocente, que busca sua mãe em um bar para levá-la para casa. Uma criança preocupada com o que possa acontecer com a mulher que lhe deu a luz. Uma criança muita mais adulta do que a mulher que carrega.
Assim, eu gostaria de escrever minha última crônica. Tão forte como esta criança. Tão bondosa e preocupante, como esta criança. Uma crônica tão pura quanto uma criança e tão responsável e valente como a criança que vi carregar sua mãe.
Escrito por Mário Eugênio Saretta Poglia às 10h14
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